Capixaba de nascimento, com um ano de idade mudou-se com sua família de Vitória para o Rio de Janeiro. Membro de uma família de classe média alta, estudou violão, na adolescência, com Solon Ayala e Patrício Teixeira (grande cantor nos anos 1930). Conheceu Roberto Menescal na década de 50 e se aproximou do grupo de artistas que participavam do então nascente movimento da Bossa-Nova. Seu apartamento, localizado na Avenida Atlântica, no bairro de Copacabana (RJ), passou então a abrigar reuniões musicais freqüentadas por compositores e intérpretes da emergente bossa nova. No final dos anos 50 trabalhava como repórter em um jornal e ao lado desses artistas, começou a participar, acompanhando ao violão, dos shows realizados nessa época nas universidades cariocas, até que um dia, de supresa, a cantora Sílvia Telles a chamou para o palco para cantar. Ficou conhecida como `musa da bossa nova`, denominação dada pelo cronista Sérgio Porto. Iniciou sua carreira profissional em 1963, integrando o elenco do musical `Pobre menina rica`, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, apresentado na Boate Au Bon Gourmet (RJ). Nesse mesmo ano, gravou `É tão triste dizer adeus` e `Promessas de você`, ambas de Carlos Lyra e Nélson Lins de Barros, no disco `Depois do Carnaval`, de Carlos Lyra. Também em 1963, participou da trilha sonora de `Ganga Zumba, rei dos Palmares`, filme de Cacá Diégues, com quem viria a se casar mais tarde, interpretando a canção `Nanã` (Moacir Santos), ainda sem letra. Ainda nesse ano, apresentou-se na França e no Japão com o trio de Sérgio Mendes. Em 1964, lançou seu primeiro LP, `Nara`, gerando polêmica entre os seguidores da Bossa-Nova por gravar composições de representantes do chamado `samba de morro`, como `Diz que fui por aí` (Zé Kéti e Hortêncio Rocha), `O sol nascerá` (Cartola e Élton Medeiros), `Luz negra` (Nélson Cavaquinho e Hiraí Barros), além de músicas de compositores ligados ao movimento, como `Marcha da quarta-feira de cinzas` (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes), `O morro (Feio não é bonito)` (Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri) e `Maria Moita` (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes). Nesse mesmo ano, lançou mais um LP, `Opinião de Nara`, contendo as canções `Opinião` e `Acender as velas`, ambas de Zé Kéti, `Esse mundo é meu` (Sérgio Ricardo e Ruy Guerra) e `Chegança` (Edu Lobo e Oduvaldo Vianna Filho). Ainda em 1964, integrou, ao lado de Zé Kéti e João do Vale, o elenco do espetáculo `Opinião`, de autoria de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, com direção de Augusto Boal. O show, realizado no Teatro Opinião (RJ), tratava de questões sociais e políticas do Brasil, então sob o governo militar, e foi registrado em disco no ano seguinte, com Nara gravado `Carcará` (João do Vale e José Cândido), entre outras. Em 1965, lançou o LP `O canto livre de Nara`, no qual registrou as gravou `Não me diga adeus` (Paquito, L. Soberano e J. C. Silva), `Carcará` (João do Vale e José Cândido) e `Malvadeza Durão` (Zé Kéti). Ainda nesse ano precisou afastar-se, por motivos de saúde, do show `Opinião`, indicando ao diretor Augusto Boal, a cantora baiana Maria Bethânia para substituí-la, tornando-se assim Nara responsável pela projeção nacional do grupo baiano, que veio à reboque do grande sucesso alcançado por Bethânia nesse espetáculo. Atuou, em seguida, no show `Liberdade liberdade`, de Flávio Rangel e Millôr Fernandes, também apresentado no Teatro Opinião (RJ). O show gerou disco homônimo, lançado pelo selo Forma no ano seguinte. Ainda em 1965, apresentou-se, ao lado de Edu Lobo e do Tamba Trio, na Boate Zum Zum (RJ) e no Teatro Paramount (SP), onde o show, `Cinco na bossa. Nara Leão, Edu Lobo e Tamba Trio`, foi gravado ao vivo e lançado em LP homônimo. Em 1966 gravou o LP `Nara pede passagem`, lançando os compositores Sidney Miller, com o sucesso `Pede passagem`, e Chico Buarque, com `Olê-olá`, `Pedro pedreiro` e `Madalena foi pro mar`. Também nesse ano, participou do II Festival da Música Popular Brasileira (TV Record), interpretando `A Banda` (Chico Buarque), canção que dividiu a primeira premiação com `Disparada` (Geraldo Vandré), defendida por Jair Rodrigues. `A banda` fez um sucesso extraordinário e alçou Nara Leão definitivamente ao posto de uma das maiores estrelas da música brasileira na década de 60, apesar de sua sempre criticada voz pequena. A canção de Chico Buarque foi registrada em seu LP `Manhã de liberdade`, lançado ainda em 1966, disco que trazia outros sucessos como `Morena dos olhos d’água` (Chico Buarque). Em 1967 casa-se com o cineasta Cacá Diegues. Grava o LP `Vento de maio`, contendo sucessos como `Quem te viu, quem te vê` e `Com açúcar e com afeto` (ambas de Chico Buarque). Participou, também nesse ano, do III Festival da Música Popular Brasileira (TV Record), interpretando `A estrada e o violeiro`, ao lado do autor da música, Sidney Miller. A canção foi contemplada com o prêmio de Melhor Letra. Artista contratada da TV Record, passou a apresentar ao lado de Chico Buarque o programa semanal `Pra ver a banda passar`. Ainda em 1967, lançou o LP `Nara`, com destaque para `No cordão da saideira` (Edu Lobo). Em 1968, gravou o LP `Nara Leão`, contendo `Lindonéa` (caetano Veloso) e `Odeon` (Ernesto Nazareth e Vinicius de Moraes), entre outras. Ainda nesse ano, participa do disco `Tropicália ou Panis et Circensis`, emblemático registro de seu engajamento no movimento Tropicalista, liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, e que foi duramente criticado pela ala da MPB da qual fazia parte a própria Nara, além de Elis Regina, Edu Lobo, Dori Caymmi, Chico Buarque e Wanda Sá, numa prova da independência intelectual que sempre norteou a carreira de Nara Leão. Em 1969, gravou o LP `Coisas do mundo`, no qual registrou `Coisas do mundo minha nega` (Paulinho da Viola) e `Fez bobagem` (Assis Valente). Ainda nesse ano mudou-se com o marido Cacá Diegues para Paris. Em 1971, gravou em Paris o álbum duplo `Dez anos depois`, no qual ela canta uma série de clássicos da bossa-nova, como `Garota de Ipanema`, `Chega de saudade`, (ambas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes). É o primeiro disco em que a `Musa da Bossa Nova` se dedica exclusivamente ao estilo que a consagrou. Nesse mesmo ano, voltou para o Brasil. Em 1972 participou ao lado de Chico Buarque e Maria Bethânia, do filme de Cacá Diégues `Quando o Carnaval chegar`, cuja trilha sonora foi registrada em LP. A partir dessa época deixa de fazer excursões prolongadas e passa a se dedicar à família e a gravações de discos esparçados, e voltando a estudar, cursando Psicologia, na PUC-Rio. Em 1975, gravou o LP `Meu primeiro amor`, cantando músicas que costumava cantar para ninar os filhos, como `Fiz a cama na varanda` (Dilu Melo e Ovídio Chaves), `Casinha pequenina` (folclore) e `Meu primeiro amor (Lejania)` (Gimenez - vrs. José Fortuna e Pinheirinho Júnior). Em 1977, lançou o LP `Meus amigos são um barato`, que contou com a participação de Tom Jobim, Chico Buarque, Edu Lobo, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Erasmo Carlos, entre outros. No repertório desse disco está `João e Maria` (Chico Buarque e Sivuca), grava em dueto com Chico Buarque e que se tornou um dos grandes sucessos da carreira de Nara. Nesse mesmo ano participou do disco infantil `Os saltimbancos`, com versões de Chico Buarque para melodias de Luiz Enriquez e Sergio Bardotti, fazendo a voz da gata, um dos personagens da história. Tornou-se um grande sucesso sua gravação de `História de uma gata` (Luiz Enriquez - Sergio Bardotti - Chico Buarque), presente nesse disco. Em 1978, gravou o LP `Que tudo mais vá pro inferno`, homenageando a obra de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, se destacando nas rádios com sua interpretação de `Além do horizonte`, de Roberto e Erasmo Carlos. Em 1980, lançou o LP `Com açúcar, com afeto`, registrando somente canções de Chico Buarque , como `A Rita` e `Homenagem ao malandro`. No ano seguinte, gravou o LP `Romance popular`, contendo os sucessos Amor nas estrelas` (Roberto de Carvalho - Fausto Nilo `), `Larannnja da China` (Fagner - Fausto Nilo) e `Penas do tiê` (folclore - adpt. Fagner). Nessa época voltou a realizar apresentações ao vivo. Em 1982, lançou o LP `Nasci para bailar`, com o sucesso `Nasci para bailar` (João Donato e Paulo André). Em 1983, gravou o LP `Meu samba encabulado`, somente com sambas como `14 anos` (Paulinho da Viola). Participou, ainda esse ano, do Projeto Pixinguinha, acompanhada pelo conjunto Camerata Carioca, quando foram apresentados shows nas cidades de Niterói, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador e Brasília, registrando o recorde de público de toda a história do projeto. Em 1984, lançou o LP `Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim...`, o segundo dedicado ao repertório da Bossa-Nova. Em 1985, lançou, com Roberto Menescal, seu amigo do começo da bossa nova, o LP `Um cantinho, um violão`, contendo `O negócio é amar` (Carlos Lyra e Dolores Duran). Em 1986, gravou, no Japão, onde sempre foi muito admirada, o CD `Garota de Ipanema`, primeiro registro de disco de um artista brasileiro nesse suporte. Em 1987, lançou o LP `Meus sonhos dourados`, contendo clássicos da música norte-americana, em versões escritas por autores brasileiros. Em 1989, lançou o LP `My foolish heart`, dando seqüência ao tema do disco anterior, com `Alguém que olhe por mim (Someone to watch over me` (George e Ira Gershwin - versão de Zé Rodrix). Faleceu no dia 7 de junho de 1989, após vários anos de luta contra um câncer no cérebro. Após sua morte, os compositores Sivuca e Paulinho Tapajós compuseram, em sua homenagem, `Canção que se imaginara`, registrada pelo primeiro no CD `Enfim solo`, lançado em 1997. Em 2001, Sérgio Cabral publicou `Nara Leão - uma biografia` (Lumiar Editora). No ano seguinte, a Universal Music lançou a caixa `Nara`, contendo os 13 primeiros álbuns da cantora, gravados entre 1964 e 1975, e um CD exclusivo de raridades, com músicas gravadas entre 1968 e 1975, e em 2003, a Universal Music lançou a caixa `Leão`, contendo, a segunda metade dos discos gravados por Nara, entre 1977 e 1989, o CD `Nara canta em castellano`, versão em espanhol do LP `Que tudo mais vá pro inferno`, além de outro com raridades extraídas de compactos. Em 2006 a gravadora Biscoito Fino lança em DVD o especial de Nara para o programa Ensaio, da TV Cultura, gravado em 1973. Nara Leão, durante a carreira, participou de vários os movimentos musicais, tendo lançado inúmeros compositores novos e relançado outros antigos, numa impressionante capacidade de escolha de repertório, e um carisma que compensava largamente a falta de potência vocal, superando em prestígio e sucesso muitas grandes vozes surgidas durante a década de 60.
NARA LEÃO
(Nara Lofego Leão)
19/1/1942 Vitória, ES - 7/6/1989 Rio de Janeiro, RJ